Enfim no Brasil: circuitos históricos do comércio atlântico de escravos

Ana Lucia Araujo*

Ótimo artigo das colegas Hebe Mattos e Martha Abreu sobre o circuito histórico do Cais do Valongo. Hebe e Martha como todos sabem são duas grandes pioneiras (junto com a saudosa Ana Lugão Rios) no estudo da história oral de descendentes de escravos no Vale do Paraíba, empreitada na qual quase nenhum outro historiador brasileiro teve a coragem de se aventurar a realizar até aqui. Como tenho estudado e escrito sobre essa questão e o cais do Valongo (entre outros) faz parte dos sítios que examino no meu próximo livro, aqui vão algumas reflexões sobre a questão.

Há mais de duas décadas antigos portos de embarque e desembarque de escravos se tornaram sítios de memória reconhecidos e alguns deles sítios históricos oficiais do tráfico atlântico de escravos (listado pela UNESCO na sua lista mundial de sítios históricos). Na África ocidental os sítios mais famosos são sem dúvida os vários castelos situados ao longo da costa de Gana e também as áreas litorâneas da República do Benim que foram objeto de várias iniciativas iniciadas nos anos 90 e mais tarde apoiadas pela UNESCO. Essa onda de patrimonialização e de valorização da memória pública da escravidão e do comércio atlântico de escravizados também encontrou eco em cidades portuárias européias tais como Bristol e Liverpool, assim como Nantes e Bordeaux na França. Nessas cidades, os trabalhos de historiadores como Éric Saugera ou de antropólogos como Christine Chivallon foram acompanhados pelas ações de associações reunindo membros da comunidade negra dessas cidades para a criação de circuitos históricos (heritage trails) marcando os lugares de memória associados com o tráfico atlântico. Provavelmente o mais famoso desses circuitos seja o de Bristol na Inglaterra (‘The Slave Trade Trail around Central Bristol’) criado nos anos 90 e que foi seguido por outras iniciativas tais como “Londres, Açúcar e Escravidão” (London, Sugar and Slavery), inaugurado em Londres em 2007, durante as comemorações da abolição britânica do tráfico de escravos. Isso dito, hoje em dia até Paris tem um circuito de história negra a ser visitado para quem se interesse, embora não tão formalizado como os circuitos britânicos. Infelizmente, essa tendência chegou bastante tarde no Brasil, somente nos últimos cinco anos. Quando realizei pesquisa e escrevi meu livro Public Memory of Slavery: Victims and Perpetrators in the South Atlantic entre 2004 e 2010, o Brasil tinha pouquíssimos monumentos e marcadores permanentes em relação com a história do comércio de escravos e da escravidão. Para muitos colegas, minha crítica sobre a ausência desses marcadores era improcedente já que a história negra e da escravidão estava em todo lugar e não precisava de monumentos permanentes. Para se ter uma idéia, o famoso (e de certa maneira o único) museu brasileiro dedicado à história negra (o Museu AfroBrasil), foi fundado somente em 2005. O primeiro monumento à Zumbi inagurado em Salvador, capital negra e da “alegria,” foi criado somente em 2008. Mas como já se anunciava na metade dos anos 2000, mais de dez anos após as iniciativas desenvolvidas na África ocidental,  essa situação começou a mudar e até os pesquisadores e estudiosos, antes céticos sobre a questão, começaram a ver a necessidade de trazer a história da escravidão para o espaço público. Porto Alegre, por exemplo, que se encontra bem às margens dos centros turísticos cariocas e baianos, tem desde 2011 um circuito oficial de história negra, o chamado “Museu do Percurso do Negro”. Tal como em Bristol, a iniciativa porto-alegrense foi levada adiante por organizações negras da cidade e finalmente reconhecida oficialmente pelo município que abraçou o projeto junto com outras organizações, inclusive a UNESCO. Hoje em dia, quem anda pelo centro de Porto Alegre pode ver os marcadores permanentes indicando o lugar da Praça da Forca onde homens e mulheres escravizados eram enforcados e onde hoje se encontra uma placa explicativa com um enorme tambor. Além disso, existem marcadores no Mercado Público da cidade, e uma “pegada” africana em plena praça da Alfândega, marcando esses sítios de memória. No caso do Rio de Janeiro esse processo também chegou bastante tarde. Obviamente que a cidade já tinha algumas iniciativas aqui e acolá tais como o pequeno e antigo Museu do Negro da Praça da Alfândega criado pela irmandade da Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos. Mas quando nos anos 90, o Cemitério dos Pretos Novos foi descoberto na zona portuária da cidade, a reação das autoridades e de boa parte dos estudiosos foi de silêncio. Esse contexto, felizmente começou a mudar em meados de 2011 com a “descoberta” do cais do Valongo na área portuária do Rio de Janeiro, mesmo se todos soubessem (acadêmicos incluídos) da existência naquela área de prédios históricos associados com o comércio de escravos, que a descoberta do cemitério na década anterior já indicava. É com prazer então que constatamos que a onda de patrimonialização da escravidão iniciada nos anos 90 em várias partes do mundo finalmente chegou ao Brasil. Na medida em que marcadores permanentes são criados, essa memória e patrimônio antes feridos e invisíveis passam agora a fazer parte de uma narrativa que aos poucos se torna oficial. Resta saber o que virá depois. Tambor Placa tambor

 

* Ana Lucia Araujo é historiadora e autora. Seu trabalho e publicações examinam a história e a memória pública da escravidão. Ela é Professora Titular no Departamento de História da Howard University em Washington DC, Estados Unidos.