12 Anos de Escravidão e o Problema da Representação das Atrocidades Humanas

* Ana Lucia Araujo

A questão da representação da violência extrema faz parte dos debates presentes na esfera pública e nos meios intelectuais e universitários desde o final da Segunda Guerra Mundial. Depois do Holocausto, enquanto muitos intelectuais e acadêmicos passaram a considerar  a ficção como meio adequado de representar as atrocidades humanas, outros acadêmicos e sobreviventes do Holocausto se opunham a estas representações ficcionais, insistindo nos problemas éticos colocados por esse tipo de representação. Theodor Adorno, por exemplo, defendeu que os testemunhos oculares são os instrumentos mais poderosos para representar de maneira exata os horrores das experiências concentracionárias e genocidárias. No entanto, sobreviventes do Holocausto como Primo Levi e historiadores como Christopher R. Browning insistiram sobre os problemas colocados pelo uso desse tipo de testemunhos, porque o desejo emocional das testemunhas poderia ofuscar a necessária abordagem crítica que os historiadores, mesmo se às vezes somente em teoria, empregam quando analisam fontes primárias.

Apesar dessas preocupações, tragédias como a escravidão e o Holocausto foram amplamente representadas em romances e peças de teatro. Ao longo dos últimos anos, vários filmes de Hollywood, como Amada, Amistad, A Lista de Schindler, Bastardos Inglórios e Django Livre retrataram a tragédia da escravidão, do tráfico atlântico de africanos escravizados e do Holocausto. O novo filme 12 Anos de Escravidão de Steve McQueen é a mais recente e provavelmente a mais bem sucedida tentativa de representar o que para muitos estudiosos e artistas faz parte da esfera do irrepresentável. Baseado na narrativa 12 Anos de Escravidão escrita por Solomon Northup e publicado em 1853, muito provavelmente a razão do sucesso do filme está relacionada com a recomendação de Adorno sobre o poder das narrativa de testemunhas oculares.

12 Anos de Escravidão retrata fielmente as provações de Salomon Northup (interpretado por Chiwetel Ejiofor). Filho de um ex-escravo, Northup nasceu livre, no estado de Nova York, em 1808, ano exato da abolição do tráfico de escravos para os Estados Unidos. Em 1829, casou-se com Anne Hampton, que Northup descreve como uma mulher de cor que carregava em suas veias o sangue das três raças. Juntos tiveram três filhos. Em 1834, Northup e sua família estavam vivendo em Saratoga, estado de Nova York. Homem instruído, Northup trabalhava fazendo diferentes atividades. Entre outros, ele obtinha contratos para transportar madeira do Lago Champlain até Troy. Durante essas viagens, ele visitou Montreal e Kingston, no Canadá. Northup também ganhou sua vida como violinista. Em 1841, ele conheceu dois homens que o convidaram a seguí-los até Nova York, para tocar violino. Northup aceitou o convite e acabou em Washington DC, a capital nacional dos EUA, onde foi sequestrado e vendido como escravo.

Northup foi mantido num entreposto de escravos em Washington DC, localizado na Avenida Independence, no. 800, onde fica a sede atual da Administração Federal de Aviação. Como uma cena de filme mostra, o entreposto tinha uma vista privilegiada para o Capitólio dos Estados Unidos. O filme apresenta uma série de elementos contrastando a vida de Northup como um homem livre e respeitável—no filme e apenas no filme, os afro-americanos parecem não sofrer qualquer tipo de discriminação no estado de Nova York—e sua vida como homem escravizado. A desumanização é representada pela perda do controle dos escravos sobre seus próprios corpos. Isso é visível nas repetidas cenas mostrando castigos físicos com chicotes, correntes, algemas e outros instrumentos de tortura. O filme também enfatiza a promiscuidade imposta aos homens, mulheres e crianças escravizados. Northup e os outros cativos mantidos com ele dormiam e tomavam banho juntos, compartilharando nudez e feridas. As cenas que retratam essas atrocidades são poderosas porque a câmera ocupa uma posição particular. Em uma das primeiras cenas no entreposto de Washington DC, quando Northup é chicoteado, a câmera é colocada perto do chão em contre-plongée. Esta estratégia de colocar a câmera na posição da vítima é empregada em outras cenas de açoitamentos, tornando o espectador uma testemunha dos horrores que ocorrem durante o filme.

Durante o resto do filme, o espectador continua ocupando a posição extremamente desconfortável de testemunha ocular e cúmplice da violência extrema imposta sobre Northup (cujo novo nome é Platt) e sobre os outros escravos. Nesse sentido, o filme é bem sucedido em mostrar as complexidades do sistema escravista, complexidades estas que também eram visíveis no Brasil. Proprietários de escravos e traficantes de escravos são certamente os algozes nesta narrativa. No entanto, fica claro no filme e nas palavras de Northup assim como nas palavras de outro escravos e ex-escravos que a ética que permite a homens e mulheres escravizados sobreviver às experiências de extrema violência é muito diferente da ética da vida cotidiana em liberdade. Em uma cena, Northup é amarrado em uma árvore com uma corda no pescoço por um feitor e por lá  permanece por alguns minutos. A câmera não se move. Como em um filme de terror, o homem pendurado ocupa o primeiro plano, enquanto homens , mulheres e crianças escravizados continuam a executar (a)normalmente suas atividades diárias. O espectador testemunha a cena de tortura sem poder fazer nada, até que enfim o senhor de Northup eventualmente corta a corda para resgatá-lo.

Outro problema significativo e complexo apresentado de forma magistral no filme é a violência imposta às mulheres escravizadas. A maioria dessas cenas estão relacionadas com os anos restantes passados por Northup em uma plantação de algodão pertencente a um homem chamado Edwin Epps (Michael Fassbender), que além de beber muito, era extretamente violento. A escrava Patsey (Lupita Nyong’o) desempenha o papel de vítima exemplar de violência e exploração sexual. Como Northup explica no relato original escrito, Patsey tinha 23 anos e era filha de um homem africano, trazido para Cuba em um navio negreiro.  Nas palavras de Northup, Patsey era a “rainha da plantação.” Ela era famosa como sendo a melhor catadora de algodão na área e por coletar 250 quilos de algodão por dia. Como narrativa de Northup e também como mostra o filme Patsey sofreu mais do que qualquer outro escravo na plantação, não por não fazer trabalho ou por ter se rebelado de várias maneiras, mas por causa da violência sexual imposta por seu senhor e o ciúme de sua senhora (Sarah Paulson). Como em outras sociedades escravistas, tais como o Brasil, o filme mostra a função catalizadora e nefasta das senhoras brancas. Em resposta ao comportamento de Epps, que constantemente estuprava a jovem e bela Patsey, a senhora também aterrorizava a jovem escrava. Além disso, Epps chicoteia Patsey só para agradar sua esposa. Em uma ocasião, Patsey deixa a plantação sem avisar e ao retornar é severamente chicoteada. Nua, a jovem é amarrada a um pelourinho. Então Northup é forçado pelo senhor a chicoteá-la. O que o filme não explica é que a esta altura Northup era um feitor, que já dominava com maestria a arte de chicotear outros escravos. Durante esta longa cena, a mais violenta de todo o filme, a câmera é por vezes posicionada no lugar do feitor e por vezes na posição de vítima. Depois de infligir algumas dezenas de chicotadas, Northup tenta desistir da tarefa horrível. Eventualmente, Epps continua a tortura até Patsey desmaiar.

Apesar de enfatizar a dinâmica complexa de terror estabelecido por um sistema em que escravos foram obrigados a punir outros escravos, o filme enfatiza a vitimização alternando cenas de ação e cenas lentas. O cineasta usa e abusa dos close-ups para fazer do espectador um cúmplice dos horrores da escravidão. Às vezes, a violência contra os homens e mulheres escravizados parece ser gratuita, especialmente no caso de Patsey. O filme retrata a escravidão como tortura e terror, mas também deixa claro que do ponto de vista do senhor uma escrava em idade reprodutiva e tão eficaz como Patsey era uma propriedade preciosa. Não só ela é bonita e inteligente, mas tinha uma tremenda habilidade para catar algodão o que gerava grandes lucros para seu senhor. O filme faz um bom trabalho em lealmente dar vida ao relato de Northup. No entanto,  espectadores e também estudiosos devem levar em conta o fato de que 12 Anos de Escravidão foi publicado no contexto do movimento abolicionista. Não se destinava apenas a fornecer um retrato preciso da vida escrava, mas também tinha como objetivo promover a campanha abolicionista. Mesmo se a grande ênfase nas punições físicas apresentadas no filme é esclarecedora para compreender a escravidão e a violência racial contra os afro-americanos, que continuou e se intensificou no período pós-emancipação, este foco coloca homens e mulheres escravizados em uma posição indefesa, onde lhes são negados qualquer tipo de agência e meios de resistir aos horrores da escravidão. Isto é particularmente visível no final do filme, quando Northup é finalmente resgatado por seus amigos brancos do norte. Mas ao mesmo tempo é importante se ter em mente que aqueles que nasceram escravizados e que não tiveram a oportunidade de serem libertados, também encontraram inúmeras maneiras de resistir e negociar suas vidas mesmo se sob esse horrível sistema. Esses homens e mulheres também foram ativos combatentes e sobreviventes, e não apenas vítimas passivas como eles são às vezes retratados no filme.

* Ana Lucia Araujo é historiadora e autora. Seu trabalho e publicações examinam a história e a memória pública da escravidão. Ela é Professora Associada no Departamento de História da Howard University em Washington DC, Estados Unidos.